A grande poda

Chegou o frio e com ele a época das podas. Na minha rua existem algumas árvores que são devidamente podadas quando dá jeito. No ano passado foi em Maio, já viçosas e cheias de folhas. Resistiram heroicamente e este ano tiveram a sorte de serem atacadas pelo serrote implacável na época devida: o inverno. Assim achava eu de início. Há cerca de 15 dias, mais coisa menos coisa, fui acordada pelo ruído incómodo mas necessário da motosserra que se ia encarregar de proceder ao devido desbaste. Saí de casa e de facto estavam 3 senhores, uma carrinha, uma motosserra e um escadote estacionados à minha porta. Deviam estar a experimentar o equipamento pois ainda não havia ramos cortados. Qual o meu espanto quando cheguei ao fim do dia a casa e as árvores permaneciam intactas. "Lá a motosserra estava avariada", pensei eu. Como tinha sido um dia de muito vento e chuva, havia muitas árvores caídas e se calhar foram deslocados para outro local...quem sabe. Só que continuou a chover copiosamente durante dias e dias e dias, o que tornava impraticável o corte das árvores, achei eu mais uma vez. Entretanto, o sol voltou e com ele aquele conjunto homem-máquina-transporte-escadote e agora acompanhados com uns cones de sinalização e uns gradeamentos usados para evitar que os carros estacionassem no local onde as árvores iam ser podadas, não fosse serem atingidas por algum ramo mais vivaço!"Agora é que vai ser", deduzi eu. Mas não. Ou antes, sim mas pouco. Lentamente mas tão lentamente, as ditas árvores têm vindo a ser desbastadas. Porém, à velocidade de uma por dia. Como não costumo assistir durante o dia ao trabalho efetuado, tudo me leva a concluir que os senhores devem ser amantes de plantas e da Natureza em geral. Só assim se explica a lentidão. Provavelmente devem abraçar a árvore, conversar com ela e deixá-la despedir-se pela última vez dos seus queridos raminhos dos quais é agora despojada e a quem a árvore se tinha afeiçoado. Deve ser bonito de ver. Um dos responsáveis deve ter uma costela de decorador de interiores, neste caso de exteriores, pois deixa sempre a sua marca com as barreiras artisticamente dispostas à volta da árvore que tenciona podar no dia seguinte mas que, nunca é. E vão ficando. Sempre com nova disposição.A ocupar lugares de estacionamento que, talvez um dia, voltem a ser ocupados por automóveis. Quem sabe... Antes da primavera espero ver devolvido o meu lugar à porta de minha casa.

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