Relatos da vida moderna
Velhinha doce. Perto dos seus 90 anos. Nítidos sinais de problemas neurológicos. De férias com marido ainda muito ativo e aparentemente da mesma idade, filha apagada e de pensamento longe da mesa de família e genro estilo saloio iluminado dono de "stander" import-export de berma de estrada. Cena: Pequeno almoço de Hotel em família. Filha, calada e de olhos postos no prato a abarrotar e em equilíbrio instável (o conteúdo do prato, nitidamente. A senhora, aparentemente) come lentamente e em silêncio. Pai, fascinado com a oferta de escolhas possíveis para encher o seu já avantajado "cérebro descaído", vai na terceira viagem de reabastecimento entre a mesa e o buffet. Genro, alimenta-se alarvemente de grandes garfadas de ovos mexidos com bacon, enquanto noutra mão jaz uma sande de salmão e queijo fresco, em fila de espera para ser ingerida, e à sua frente um grande copo de sumo de pepino, cenoura e beterraba, da cor da terra dos vasos da varanda. A idosa, alheada, de olhar parado e movimentos lentos, espera que lhe tragam algo para comer, já que a sua mobilidade e a sua vontade já não são o que eram. Marido pergunta o que quer. Ela responde, baixinho e hesitante, "cevada e pão". Pressuponho que toda a vida, ou pelo menos grande parte dela, deve ter sido esse o seu "almoço", como se costumam referir os mais velhinhos, à refeição do pequeno almoço. O sapiente iluminado do genro, do alto da sua sabedoria, começa a perorar, em voz alta para que todos tenhamos a sorte de podermos usufruir gratuitamente dos seus vastos conhecimentos, sobre a necessidade de a senhora ingerir uma quantidade de proteína, vitamina, cereal e líquido (sim que os entendidos falam sempre destes nutrientes no singular. Suponho que também usem calção de banho e óculo) digna de um nadador olímpico em dia de competição. Convence então o sogro a ir buscar um iogurte de proteína, uma tosta com queijo e ovos, um sumo de beterraba (vou-me abster de descrever as vantagens da ingestão deste líquido numa nonagenária que toda a vida comeu cevada com pão) e, se a senhora então ainda pretender, pode trazer uma cevada (o aporte de cereal!! Esse belo nutriente) e o tal do pãozinho. A senhora olha,sem entender nada do que se fala. O pai, ofuscado por tanta sabedoria (pensa do certamente "a minha filha é que teve sorte com este homem"), lá vai carregando, viagem após viagem, comida para um regimento. A senhora, calada e de olhar ausente, pousa então os seus olhos tristes sobre aquele desfile de pratos cheios. Lenta mas decididamente, puxa para si a chávena almoçadeira com a cevada. Mais um olhar e saca um pão do monte que a filha, ausente em planeta distante, trouxe para o seu lauto pequeno almoço. Vai partindo o pão em pedacinhos e deitando para dentro da chávena. Ou malga, na sua cabecinha. Como fez toda a vida. Pega na colher e começa a comer. Esboça então um sorriso. Estava a saber-lhe bem. Era aquele aporte que precisava. Não de nutrientes mas de memórias .🤍

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