Aquele que diz que o local mais bonito de Lisboa é o Cemitério do Alto de S. João, aqui a cantar Amália com um arranjo verdadeiramente Vampiria. Para não esquecer.
Velhinha doce. Perto dos seus 90 anos. Nítidos sinais de problemas neurológicos. De férias com marido ainda muito ativo e aparentemente da mesma idade, filha apagada e de pensamento longe da mesa de família e genro estilo saloio iluminado dono de "stander" import-export de berma de estrada. Cena: Pequeno almoço de Hotel em família. Filha, calada e de olhos postos no prato a abarrotar e em equilíbrio instável (o conteúdo do prato, nitidamente. A senhora, aparentemente) come lentamente e em silêncio. Pai, fascinado com a oferta de escolhas possíveis para encher o seu já avantajado "cérebro descaído", vai na terceira viagem de reabastecimento entre a mesa e o buffet. Genro, alimenta-se alarvemente de grandes garfadas de ovos mexidos com bacon, enquanto noutra mão jaz uma sande de salmão e queijo fresco, em fila de espera para ser ingerida, e à sua frente um grande copo de sumo de pepino, cenoura e beterraba, da cor da terra dos vasos da varanda. A idosa, alheada, de ol...
Valença 07-2025 Pousada de S Teotónio, Valença do Minho. Vim tomar um café. Sem marca. Gosto duvidoso. 2.50€. pedi adoçante. A menina, com uma tabuleta de estagiária, olha para mim e pergunta surpreendida '"Adoçante??? Acho que não temos isso." Vai para dentro e traz um pacote. Coitada. Muito nova. Sozinha no bar. Com uma camisa branca toda engelhada, suja nos colarinhos e punhos. A culpa não é dela. É de quem acha que é só chular quem se hospeda aqui. Em nome dum passado que já não existe. Móveis velhos. Sofás sujos e de almofadas gastas. Tapetes do Ikea. Vende-se Siza Vieira. A metro.
Volto aqui no mesmo dia, 3 anos depois. Pelo mesmo motivo. Descobri hoje que só tenho 3 fotos com o meu pai. Porque naqueles tempos, tirar uma foto era um acontecimento. Porque o fotógrafo raramente aparecia nas fotos. Era a sua máquina; as suas regras. Porque esteve pouco tempo presente na minha vida. Alguém, algures, vá-se lá saber quem, tinha outros planos para ele. É natural. Era um homem naturalmente bom. Um artista. Um homem muito à frente no seu tempo. Muito amado por todos. Claro que não iam desperdiçar a oportunidade de ter alguém como ele algures onde moram os homens bons. Fazes-me falta. Era o teu Mafarrico. Tinhas um colo onde me aninhava. Fazes-me falta.
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